Uma investigação criminal conduzida pela Polícia Civil de Alto Araguaia foi aberta após o Ministério Público do Estado (MPMT) determinar a instauração de inquérito para apurar denúncias de desvio de dízimos, uso de PIX em conta pessoal e suspeitas de um esquema financeiro dentro das paróquias Senhor Bom Jesus da Lapa, em Ponte Branca, e São José Operário, em Araguainha, ambas pertencentes à Diocese de Barra do Garças. Os fatos teriam ocorrido entre 2023 e 2024, período em que o padre V.P.S, atuava como administrador das unidades.
As denúncias feitas por um ex-seminarista, que também é jornalista, vieram à tona nesta sexta-feira (17). O caso ganhou um ingrediente inusitado.
Em um print anexado à denúncia, o padre repreende um jornalista, que é ex-seminarista, por supostamente seguir “boys magia” nas redes sociais. “Acabei de deixar de seguir um boy magia bombado… isso gera desconfiança por parte de alguns clérigos”, escreveu o sacerdote, sugerindo julgamento sobre a conduta pessoal. O jornalista rebateu dizendo que segue perfis de forma aleatória e negou qualquer comportamento inadequado.
Segundo o material entregue às autoridades, o sacerdote é investigado por supostas irregularidades na administração de recursos das paróquias por onde passou, incluindo Ponte Branca e Araguainha. Fiéis relatam que valores de dízimos, ofertas e até arrecadações de festas religiosas estariam sendo direcionados para contas pessoais do padre, por meio de transferências via Pix, driblando o controle da Diocese. O próprio salto nos valores após a saída dele chamou atenção: o dízimo, que antes girava entre R$ 2,5 mil e R$ 3,5 mil, praticamente dobrou com outro pároco.
Além da questão financeira, a denúncia aponta um rastro de abusos psicológicos, humilhações e intimidações contra o jornalista que denunciou o caso. O material cita práticas degradantes dentro da casa paroquial, como privação de comida, exposição pública durante missas e até a obrigação de dividir utensílios com animais.
Paralelamente, o denunciante também acionou instâncias máximas da Igreja, incluindo o Vaticano. Em um dos documentos, ele pede o afastamento imediato do padre com base no Direito Canônico, alegando risco de escândalo e interferência nas investigações.
A denúncia ainda detalha episódios considerados graves, como cobrança de despesas pessoais ao seminarista, suspeita de pagamentos indevidos, além de relatos de fiéis que descrevem o padre como autoritário, apelidado nos bastidores de “coronel”.
O documento completo, com mais de 180 páginas, reúne laudos médicos, prints de conversas, comprovantes e depoimentos que, segundo o denunciante, evidenciam um padrão contínuo de abuso de poder e possíveis crimes.
Os abusos
Segundo a denúncia, os abusos teriam começado em dezembro de 2023, quando a vítima chegou à Diocese para um período de discernimento vocacional com vistas à ordenação sacerdotal. De acordo com o relato, o padre Vandilson teria submetido o seminarista a um conjunto sistemático de práticas de degradação psicológica, que incluíam privação de alimentos, obrigação de usar utensílios contaminados pelos animais do sacerdote, humilhações públicas durante celebrações de missas e em grupos de WhatsApp paroquiais, além de intimidações constantes.
A situação teria se agravado a ponto de a vítima ser internada em UTI coronária do Hospital Santa Rosa, em Cuiabá, em decorrência direta do clima de tensão e violência psicológica imposto pelo sacerdote. Laudos médicos e psicológicos documentam o quadro de saúde da vítima. Registros do Hospital Nossa Senhora da Abadia, em Ribeirãozinho, também apontam internações por pressão alta e febre emocional causadas pelos abusos. Testemunhas confirmam os atendimentos. O próprio padre teria ironizado publicamente a internação em UTI durante uma missa, atribuindo-a a hábitos alimentares da vítima.
No âmbito doméstico, o tratamento dispensado ao seminarista também era degradante. Segundo o relato, quando chegava para jantar, a refeição já havia sido dada aos cachorros do padre, obrigando-o a se virar com o que restava. Em outras ocasiões, o sacerdote servia primeiro os animais e somente depois permitia que o seminarista se alimentasse.
Ex-paroquianas das comunidades onde o padre atuou relatam um padrão consistente de abuso e irregularidades financeiras. Uma ex-paroquiana de Ponte Branca afirmou que o padre recebia não apenas valores da festa do padroeiro, mas também doações depositadas diretamente em sua conta pessoal. Outra relatou que o dízimo praticamente dobrou após a saída do sacerdote, levantando suspeitas.
Uma ex-paroquiana de Ribeirãozinho destacou o contraste entre a postura do padre e a do seminarista, descrevendo o segundo como atencioso e próximo da comunidade, mesmo diante das restrições impostas.
A denúncia descreve ainda que o padre teria cobrado do seminarista o pagamento da conta de energia elétrica da casa paroquial como condição para uso do ar-condicionado, apesar de o equipamento ter sido instalado por determinação do bispo. Também há relato de exigência de pagamento para substituição da bateria de um veículo da paróquia, com comprovante anexado.
Um dos episódios mais graves envolve um ex-coroinha menor de idade, a quem o padre teria pago para realizar massagens em seu corpo. O caso é corroborado por áudio já entregue à Polícia Civil e anexado ao inquérito.
Caixa 2
As irregularidades financeiras descritas vão além de casos pontuais. Segundo a denúncia, o padre teria direcionado sistematicamente para suas contas pessoais recursos que deveriam ir para as contas oficiais das paróquias, incluindo dízimos, ofertas, rifas, festas religiosas e doações diversas.
O método, conforme o relato, consistia em convencer fiéis a depositarem valores diretamente via Pix em sua conta, sob a justificativa de dificuldades financeiras das paróquias e para evitar repasses obrigatórios à Diocese.
Há ainda a suspeita de uso de nota fiscal simulada de um supermercado para viabilizar doações de uma instituição pública, o que pode configurar improbidade administrativa.
A denúncia também aponta tentativas de obstrução, como um áudio em que uma secretária assume a responsabilidade pelos desvios. Segundo o relato, as prestações de contas eram manipuladas, com retirada de notas fiscais para reduzir valores declarados à Diocese.
O aumento nos valores de dízimos após a saída do padre reforça, segundo os denunciantes, a suspeita de desvio sistemático.
“O bispo sempre me protegerá”
De acordo com a denúncia, o padre criava um ambiente de intimidação ao afirmar que qualquer denúncia ao bispo não teria efeito, pois ele próprio seria designado para tratar do assunto.
Um episódio citado envolve um jovem com pensamentos suicidas, cujo atendimento foi interrompido pelo padre, que teria pressionado o seminarista a encerrar a conversa.
Em novembro de 2024, o sacerdote proibiu a realização de exéquias para um jovem de 18 anos, alegando falta de batismo. A declaração pública gerou revolta na comunidade. Posteriormente, o seminarista comprovou que o jovem havia sido batizado em circunstâncias válidas e realizou a cerimônia.
Desvio de função
A denúncia também aponta que uma secretária paroquial teria sido obrigada a exercer funções de cozinheira sem remuneração adequada.
A vítima formalizou três pedidos de afastamento cautelar do padre, com base no Direito Canônico, mas nenhum foi atendido pelo bispo diocesano.
Segundo a denúncia, o bispo já tinha conhecimento dos fatos desde agosto de 2024 e não teria adotado providências.
Em fevereiro de 2025, o Conselho Presbiteral não formou maioria para afastar a vítima do processo vocacional, mas o bispo determinou o afastamento de forma unilateral, sem processo formal.
O bispo também é alvo de denúncia junto à Santa Sé, com base em normas que preveem responsabilização por omissão.
Após as denúncias, o padre foi transferido para a Paróquia Nossa Senhora Auxiliadora, em Barra do Garças. A mudança é apontada como tentativa de proteção institucional.
Antes de sair da paróquia, o seminarista registrou relatos no Livro de Tombo. Há suspeita de que essas páginas tenham sido removidas, o que pode configurar supressão de documento.
A denúncia pede a apreensão do documento pelas autoridades.
Também é apontado que os conselhos paroquiais funcionavam apenas formalmente, sem participação efetiva nas decisões.
Em resposta, o padre apresentou queixa-crime contra a vítima por calúnia e difamação. Especialistas apontam possível retaliação, prática vedada por normas da Igreja.
A vítima já foi convocada para prestar depoimento na Polícia Civil de Alto Araguaia.
Histórico do sacerdote
Segundo a denúncia, o padre é egresso da Diocese de Osasco, onde teria sido desligado do seminário. Foi ordenado diácono em 2019 e sacerdote em 2020 na Diocese de Barra do Garças, onde ocupou diversos cargos de destaque.
A vítima afirma ter abandonado carreira e rendas significativas para seguir a vocação religiosa. O afastamento do processo vocacional, sem processo formal, teria causado prejuízos pessoais e profissionais.
Por Folhamax